A família âmbar, o antigo oriental: um guia para quem gosta de aromas cremosos
Se você já foi atraído por um perfume quente, envolvente, com aquele fundo adocicado que lembra baunilha e resina, provavelmente gosta de uma família olfativa inteira sem saber o nome dela. Por muito tempo ela se chamou oriental. Hoje a indústria vem adotando outro nome, âmbar, em parte porque o termo antigo carregava uma generalização preguiçosa sobre tudo o que vinha do Oriente. A mudança de rótulo é recente e ainda convive com o nome velho, mas o conteúdo é o mesmo, e é delicioso.
O coração dessa família é um acorde, o âmbar, que causa uma confusão comum. Ele não vem do âmbar-cinzento, aquela substância rara de origem animal. O acorde âmbar da perfumaria é uma construção, feita sobretudo de duas matérias: o labdano, uma resina escura e balsâmica extraída de um arbusto do Mediterrâneo, e o benjoim, outra resina, doce e com um quê de baunilha. A esse par juntam-se com frequência a própria baunilha e a tonka, e o resultado é aquela sensação de calor dourado que define a família.
Em volta desse núcleo giram as notas que dão o caráter cremoso de que tanta gente gosta. O sândalo entra com sua textura leitosa, quase amanteigada. O benjoim e a tonka reforçam a doçura balsâmica. Notas lactônicas, que evocam leite e coco, deixam o conjunto macio. Quando a baunilha e o caramelo tomam a frente e o perfume passa a cheirar a sobremesa, entramos num ramo próprio, o gourmand, primo mais guloso da família âmbar. É a diferença entre um perfume que aquece e um perfume que dá vontade de comer.
Para quem quer entender a família pela raiz, vale conhecer o marco fundador. Shalimar, criado por Jacques Guerlain em 1925, é o oriental clássico por excelência, a baunilha encontrando o âmbar e a bergamota num contraste que definiu o gênero para o século seguinte. Quase tudo que veio depois, nessa linha, conversa com ele.
Uma vantagem prática fecha o argumento a favor dessa família: as resinas que a compõem são pesadas e fixam muito bem. Um bom âmbar dura horas na pele e deixa rastro. Por isso costuma render mais no frio e à noite, quando o calor do corpo abre as notas aos poucos, sem que elas evaporem depressa demais. É perfume para quem gosta de ser lembrado depois de sair da sala.