Jogos de tabuleiro modernos: cinco portas de entrada
Muita gente ainda acha que jogo de tabuleiro é aquilo da infância, sorte de dado e briga de família. Faz décadas que deixou de ser só isso. Existe um universo de jogos modernos, muitos vindos de uma tradição de design europeu, em que o acaso conta pouco e a decisão conta muito. São jogos que respeitam a inteligência de quem senta à mesa. Escolhi cinco que funcionam como portas de entrada, cada um representando uma mecânica diferente.
Comece por Azul, de Michael Kiesling, lançado em 2017 e vencedor do Spiel des Jahres em 2018, o prêmio mais importante do meio. É um jogo de colocação de peças: você recolhe azulejos coloridos de um mercado central e os arruma no seu painel tentando compor padrões. As regras cabem em cinco minutos, as decisões cabem numa vida. É bonito de ver e cruel na medida certa, porque o que você não pega vai parar na mão do adversário. Ideal para apresentar o hobby a quem desconfia dele.
Se a ideia de construir uma engrenagem que trabalha por você agrada, o próximo passo é o conceito de motor, o engine building. Em Wingspan, de Elizabeth Hargrave, de 2019, você monta um santuário de aves em que cada pássaro colocado potencializa os outros, formando reações em cadeia. É um jogo de temática naturalista, com ilustrações lindas e uma curva de aprendizado gentil, que agrada tanto quem quer estratégia quanto quem só quer um jogo bonito na mesa.
Para quem quer peso de verdade, Terraforming Mars, de Jacob Fryxelius, de 2016, leva o motor ao extremo. Você comanda uma corporação encarregada de tornar Marte habitável, elevando temperatura, oxigênio e oceanos ao longo de gerações. São dezenas de cartas que se combinam de formas quase infinitas. É um jogo longo, denso, que recompensa o planejamento de quem gosta de sentir o cérebro trabalhar por duas horas.
Não dá para falar de jogos modernos sem citar o marco que abriu as portas do hobby para o grande público. Catan, de Klaus Teuber, de 1995, foi o título que ensinou o mundo a negociar recursos, trocar cartas e disputar território num tabuleiro que muda a cada partida. Envelheceu, mas segue sendo uma aula de desenho de jogo e uma porta de entrada perfeita para grupos que gostam de conversar enquanto jogam.
Fecho com Carcassonne, de Klaus-Jürgen Wrede, de 2000, outro clássico da colocação de peças. Você constrói um mapa medieval encaixando peças que formam estradas, cidades e campos, e disputa cada uma com pequenas figuras de madeira, os meeples, palavra que virou parte do vocabulário de qualquer jogador. É simples, elegante e infinitamente rejogável, o tipo de jogo que se deixa sempre à mão.
Cinco jogos, cinco mecânicas, cinco maneiras diferentes de pensar. Se um deles fisgar você, saiba que atrás de cada um há um oceano de outros esperando.