O Brasil vertical: por que o Art Déco combinou tão bem com a nossa modernidade
Há um estilo que marcou a paisagem brasileira num momento muito específico e que a maioria das pessoas reconhece sem saber nomear. É o Art Déco, e seu monumento mais famoso está no alto de uma montanha no Rio de Janeiro. O Cristo Redentor, inaugurado em 1931, é a maior escultura Art Déco do mundo. As linhas retas dos braços abertos, a estilização geométrica do rosto e das vestes, tudo ali pertence a essa gramática visual. Passamos a vida vendo o cartão-postal sem reparar que ele é uma aula de estilo.
O Art Déco chegou ao Brasil na década de 1930 e encontrou terreno fértil por um motivo que vai além do gosto. O país vivia uma pressa de se modernizar, de trocar o passado colonial e a exuberância do ecletismo por algo que parecesse eficiente, industrial, novo. O Déco oferecia exatamente essa imagem. Sua estética nasceu da geometria e da máquina: linhas verticais que puxam o olhar para cima, formas em zigue-zague, superfícies limpas, baixos-relevos de trabalhadores e alegorias do progresso. Era um estilo que parecia dizer que o futuro havia chegado, e chegado organizado.
As cidades brasileiras que cresciam depressa vestiram esse figurino. No Rio, a região da Cinelândia e boa parte dos edifícios residenciais que subiram na época carregam a marca do Déco: fachadas escalonadas, entradas monumentais, elevadores com portas de ferro trabalhado, halls de mármore e latão. Em cidades menores, o estilo apareceu em cinemas, mercados, sedes de prefeitura, estações. Era o rosto oficial de um Brasil que se queria urbano e produtivo, e não por acaso floresceu no período em que o Estado investia pesado na imagem da indústria e da ordem.
O que me fascina no Déco é o equilíbrio que ele encontrou entre o luxo e a disciplina. Diferente do estilo que o antecedeu, ele não tinha medo da linha reta nem da repetição. Mas também não era frio como o modernismo que veio depois. Havia ornamento, havia sofisticação, havia o brilho de materiais nobres. Era um luxo geométrico, contido, adulto. Talvez seja por isso que ele nunca saiu de moda de vez. Ainda hoje, quando um projeto de interiores recorre a latão escovado, mármore de veios marcados, espelhos biselados e simetria rigorosa, está bebendo daquela fonte, mesmo sem saber o nome dela.