A linha curva e a linha reta: do Art Nouveau ao ambiente de hoje
Para entender o que deu certo no design de interiores, ajuda voltar a uma disputa entre duas linhas. De um lado, a curva. Do outro, a reta. As duas dominaram momentos diferentes e, curiosamente, as duas continuam presentes na casa contemporânea, muitas vezes na mesma sala.
A curva teve seu auge com o Art Nouveau, na virada do século XIX para o XX. Era um estilo apaixonado pela natureza: caules que viram corrimão, flores que viram luminária, vitrais que imitam o movimento da água. Tudo ondulava, tudo era artesanal, tudo fugia da linha reta como quem foge do tédio industrial. O Art Nouveau foi, em certo sentido, um protesto contra a máquina, uma tentativa de devolver ao objeto a marca da mão que o fez.
A reta veio como resposta. O Art Déco, e depois o modernismo, cansaram do excesso decorativo e abraçaram a geometria, a simetria, a economia de gestos. Onde o Nouveau punha uma flor, o Déco punha um losango. Onde um enchia, o outro organizava. Essa oscilação entre encher e esvaziar é, no fundo, o pêndulo de toda a história da decoração.
O ambiente contemporâneo bem resolvido, na minha experiência, não escolhe um lado. Ele usa a reta como estrutura e a curva como alívio. Uma estante rigorosamente geométrica ganha vida com o desenho orgânico de uma poltrona; uma parede sóbria pede o contraponto de um vaso de linhas moles. O erro mais comum de quem começa a decorar é achar que precisa ser coerente até o fim, escolher um estilo e obedecer a ele. Os ambientes que envelhecem bem quase sempre nascem de uma tensão bem administrada entre esses dois impulsos. É a mesma lição que a história dos estilos vem ensinando há mais de um século.