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Ensaios e crítica cultural

O país explicado por seus livros: um roteiro pelos intérpretes do Brasil

3 min de leitura·Por Denis Ramos

Há uma prateleira de livros que funcionam como espelhos do Brasil. Foram escritos entre os anos 1930 e o fim dos anos 1950, e ainda hoje quase toda discussão séria sobre o país passa por eles, mesmo quando não os cita. Ler esses autores em sequência é assistir a uma longa conversa, às vezes a uma briga, sobre a mesma pergunta: que tipo de nação nós construímos e por quê.

A conversa costuma começar em 1933, com Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. O livro tirou a formação brasileira do terreno da vergonha e a colocou no terreno da cultura. Freyre descreveu a sociedade patriarcal do açúcar, a intimidade violenta entre a casa-grande e a senzala, a mistura de heranças africanas, indígenas e portuguesas na cozinha, na cama, na língua. A tese da convivência entre as raças rendeu a Freyre décadas de prestígio e décadas de crítica, porque suavizava a brutalidade da escravidão sob o nome ameno de intimidade. Vale ler pela força da descrição e ler com desconfiança pela conclusão. As duas coisas ao mesmo tempo.

Três anos depois veio o livro que talvez tenha entrado mais fundo no vocabulário nacional. Em Raízes do Brasil, de 1936, Sérgio Buarque de Holanda cunhou a expressão que desde então é citada torto: o homem cordial. Cordial não quer dizer gentil. Vem de coração, de emoção, e descreve alguém que conduz a vida pública pela lógica do afeto e da intimidade, incapaz de separar o que é seu do que é do Estado. O homem cordial trata o funcionário como amigo, o país como quintal e a formalidade como uma frieza a ser evitada. Sérgio Buarque via nisso uma herança ibérica e um obstáculo à impessoalidade que uma democracia moderna exige. É um diagnóstico que continua desconfortavelmente atual.

Em 1942, Caio Prado Júnior deu à conversa um chão material. Formação do Brasil Contemporâneo propôs que a chave para entender o país não estava na cultura nem no caráter, mas no que ele chamou de sentido da colonização. O Brasil, nessa leitura, nasceu como empresa voltada para fora, um imenso negócio de exportação organizado para abastecer o mercado europeu. Tudo o mais, a estrutura da terra, do trabalho e da sociedade, decorreu dessa finalidade. É o Brasil visto por um marxista rigoroso, que troca o retrato psicológico pela análise econômica e deixa uma pergunta incômoda: quanto daquela lógica de colônia ainda organiza a nossa economia.

O quarto nome fecha o argumento pelo lado do Estado. Em Os Donos do Poder, de 1958, Raymundo Faoro descreveu o patrimonialismo brasileiro: um Estado que nasceu antes da sociedade, herdado de Portugal, comandado por um estamento burocrático que trata o aparelho público como propriedade e distribui cargos, favores e privilégios como quem reparte um espólio. Onde Sérgio Buarque via um traço de caráter, Faoro via uma máquina. A força do livro está em mostrar continuidade onde costumamos ver ruptura: para ele, a Colônia, o Império e a República são variações de um mesmo arranjo de poder.

Se ainda houver fôlego, vale terminar com Celso Furtado. Formação Econômica do Brasil, de 1959, reconstrói a economia do país em ciclos, do açúcar ao ouro ao café, e mostra como cada ciclo deixou heranças que os seguintes não conseguiram desfazer. Furtado deu ao subdesenvolvimento um estatuto teórico: não era etapa atrasada rumo ao progresso, mas estrutura, um modo de funcionar que se reproduz. Foi economista e foi escritor, o que torna o livro raro na sua categoria, tão claro que se lê quase como ensaio.

Lidos juntos, esses cinco livros não formam um consenso. Freyre celebra o que os outros denunciam; Sérgio Buarque psicologiza o que Faoro institucionaliza; Caio Prado e Furtado discordam entre si sobre o peso de cada fator. É exatamente por isso que valem o esforço. O Brasil não cabe numa tese só, e a melhor maneira de começar a entendê-lo é deixar que esses autores discordem na nossa frente.

Denis Ramos · Ensaios