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Ensaios e crítica cultural

Machado de Assis e a arte de desconfiar do narrador

2 min de leitura·Por Denis Ramos

A grande lição que Machado de Assis deixou ao romance brasileiro é também a mais desconfortável: nunca confie inteiramente em quem está contando a história. Antes dele, o narrador era uma voz a serviço do leitor, uma testemunha que se supunha honesta. Depois dele, o narrador virou suspeito. É uma reviravolta que Machado operou com tamanha elegância que muita gente lê seus livros sem perceber que foi enganada.

O golpe começa em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas. A primeira frase já avisa o que vem: quem narra é um defunto autor, um morto que resolveu escrever suas memórias do outro lado da vida. Livre das consequências, sem nada a perder, Brás Cubas conta a própria existência com uma franqueza que só um cadáver pode ter. O resultado é um retrato impiedoso de um homem medíocre que se acha superior, dono de uma vida sem obra e sem sentido, resumida numa contabilidade que ele mesmo apresenta com orgulho: não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. A ironia é o ar que o livro respira. O leitor ri e, meia página depois, percebe que riu de si mesmo.

Dezoito anos mais tarde, em Dom Casmurro, Machado levou a desconfiança ao limite. Bento Santiago escreve para provar uma tese: que a mulher, Capitu, o traiu com o melhor amigo, e que o filho não era seu. Ele reúne indícios, interpreta olhares, monta o caso como um advogado. E aqui está a armadilha, a mais famosa da literatura brasileira. Bento é a única fonte que temos. Não há uma linha do livro que não passe por ele. A tal traição de Capitu talvez tenha acontecido, talvez seja a invenção de um homem devorado pelo ciúme. Machado não resolve a dúvida, e gerações de leitores brigam por ela até hoje. O verdadeiro tema do romance não é o adultério; é a facilidade com que um narrador convincente nos faz condenar alguém.

O que torna Machado singular é que seu realismo não se parece com o dos contemporâneos. Enquanto o naturalismo da época se ocupava de descrever a miséria física, os cortiços, as doenças, a hereditariedade, Machado apontou a câmera para dentro, para a vaidade, a autoilusão, os pequenos cálculos morais que fazemos sem admitir. Seu pessimismo tem parentesco com Schopenhauer e um humor que é só dele. Em outro romance, Quincas Borba, ele resumiu numa fórmula a lógica cruel do mundo: ao vencedor, as batatas. É uma filosofia inteira em quatro palavras.

Reler Machado hoje é uma aula de ceticismo saudável, e não apenas em literatura. Ele treina o leitor para uma suspeita que serve para tudo: notícias, discursos, versões interessadas de qualquer história. A pergunta que seus livros ensinam a fazer é sempre a mesma. Quem está me contando isto, e o que essa pessoa ganha ao me convencer?

Denis Ramos · Ensaios